terça-feira, 8 de outubro de 2013

001 - Prefácio

  Quando ele chegou não tinha um nome, mas um objetivo bem traçado: seria meu companheiro de quarto. Eu queria branco, mas veio preto. Queria calmo, veio agitadíssimo. No fim descobri que não há escolha nesta situação. O simples fato de adotá-lo excluiu todos meus preceitos. Eu gostei.
  A Bea chegou com ele no colo e de cara eu pensei em Edgar. Ela adorou, eu adorei, o gato... Eu imaginei ele contente. Tinha quarenta dias, os olhos verdes e um pelo preto veludo e cheio demais para um filhote. Tudo isso me remetia ao Corvo:

Diante do gato peludo e escuro,
Naquele atento costume,
Com o hálito de peixe - o vago pensamento -
Mirou-me ali por um momento,
E eu disse:
"Ei, tu que das noturnas palavras vens,
 “Embora as orelhas pontudas tragam,
"Sem azar, o curioso felino que és,
"Dizes-me teu nome gatinho;
"Como te chamas tu, nessa noite de semana?"
E o gato miou: "Nunca mais".

  Mas concordo que minha imaginação não confere a realidade, e por isso a chamam imaginação. Edgar era Edgar por causa do autor e minha fascinação por ele. Tanto os contos quanto a vida caótica. Talvez a escolha do nome tenha sido um dos fatores a influenciar a persona do gato, não excluindo a bagunçada rotina que eu levo.
  Enfim, Edgar, o gato preto que mora comigo, me levou a escrever. Decidi relatar a facilidade com que ele faz amigos, as brincadeiras agressivas, os lapsos de compaixão, a fascinação por sacolas e moscas, as visitas para ele e não para mim... Quando ele aprendeu a subir no armário, quando ele começou a praticar le Parkour no sofá. A vez em que ele carregou o conteúdo da caixa de areia para o meio da sala. Quando me mordeu, quando mordeu a mãe, quando mordeu o pai, quando mordeu a Bea e o Mu e todos as pessoas que eventualmente entram no 103. Como acorda comigo e toma café junto. Como senta sobre o frigobar e curte o movimento da rua.

  A minha rotina e a do Edgar em... Preciso ir ver porque ele tá miando agora. o/